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Marco Aurélio Fornazieri, otorrinolaringologista: “Há poucos estudos relacionados ao olfato e a própria população não dá muito valor, somente quando se perde esse sentido”

Dormir a noite inteira, ter um bom apetite e ganhar peso. Na infância, essas são situações essenciais para um bom desenvolvimento. Entretanto, uma boa parcela das crianças pode ter, em algum momento, um comprometimento dessa evolução por conta da adenoide. Conhecida popularmente como “carne esponjosa”, a adenoide é um tecido linfoide localizado na parte de trás do nariz, em uma região chamada rinofaringe. Sua função é proteger o organismo contra vírus e bactérias que entram pela cavidade nasal, “alertando” o sistema imunológico, que passa então a produzir anticorpos.
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Em algumas crianças, quando a adenoide é aumentada (hipertrofia de adenoide), ou seja, quando o espaço que ela ocupa entre a base do crânio até o palato duro passa de 50%, as funções olfatória e respiratória sofreram prejuízos.

Essa foi a resposta que Marina Moreira de Paula encontrou para as noites mal dormidas e as infecções de garganta do neto Cauã Silveira de Paula, 9. Eles moram juntos em Arapongas (Região Metropolitana de Londrina) e ela conta que o garoto respirava pela boca e acordava mais de três vezes durante a noite. “A partir dos dois anos, ele passou a ter muitas dores de garganta e febre. Era a cada três meses, mas depois passou para 15 dias. Nem o antibiótico estava fazendo mais efeito”, comenta.

As infecções de repetição são, segundo o otorrinolaringologista em Londrina, Marco Aurélio Fornazieri, um dos sinais da adenoide aumentada, além de apneia (parada da respiração durante o sono), respiração oral (pela boca), mau hálito ao longo do dia, ronco, má alimentação e dificuldade para ganhar peso.

Roberto Custódio

Roberto Custódio – ‘Hoje ela dorme a noite inteira, se alimenta muito melhor e até voltou a ganhar peso’, afirma Daniela, mãe de Giovana Kawai Diniz, que passou por uma cirurgia para retirada de adenoide e de amígdalas
“Hoje ela dorme a noite inteira, se alimenta muito melhor e até voltou a ganhar peso”, afirma Daniela, mãe de Giovana Kawai Diniz, que passou por uma cirurgia para retirada de adenoide e de amígdalas

Fornazieri conduziu um grupo de pesquisa na área de Otorrinolaringologia do curso de medicina da UEL (Universidade Estadual de Londrina) para investigar os efeitos no olfato das crianças que são submetidas à cirurgia de remoção da adenoide (adenoidectomia). “O fato de a criança se alimentar mal está relacionada também com a capacidade dela sentir sabores e cheiros, além da questão da respiração. Este foi um dos mais importantes achados do estudo. A criança, após a cirurgia, passou a ter mais prazer em se alimentar”, afirma.

O estudo intitulado “Os efeitos da adenoidectomia na percepção do olfato de crianças” foi publicado em outubro de 2018 na International Forum of Allergy and Rhinology, revista mais importante na área de rinologia.

Entre 2016 e 2017, o grupo de pesquisadores submeteu 76 crianças de 5 a 12 anos a um teste de olfato. Elas foram avaliadas antes da adenoidectomia e 45 dias depois. “As crianças rasparam um papel e aproximavam o nariz para que pudessem apontar nas figuras apresentadas qual odor sentiam. Antes da cirurgia, a criança acertava sete dos 11 cheiros; e depois voltou ao normal, acertando entre 10 e 11”, destaca.

De acordo com Fornazieri, as crianças que tinham mais de 50% da adenoide aumentada melhoraram o olfato em mais de 70%. “É clinicamente significativo e por isso o estudo foi publicado. Há poucos estudos relacionados ao olfato e a própria população não dá muito valor, somente quando se perde esse sentido”, diz. O médico explica que as crianças com adenoide hipertrofiada acima de 50% são mais propensas, por exemplo, a comer alimento estragado, a não avaliar a própria higiene e nem sentir cheiro de fumaça.

Cauã participou desse estudo e teve a adenoide removida. A avó diz que a cirurgia foi tranquila e que na mesma semana o neto já estava se alimentando normalmente, mas com uma melhora significativa no apetite. “Antes ele não estava nem ganhando muito peso, mas agora está desenvolvendo bem demais. Ele passou a comer a refeição toda e não acorda mais à noite. Foi muito bom”, comenta.

De acordo com o médico, o relato dos pais de todos os participantes foi essencial para confirmar a melhora na alimentação.

Procedimento é de baixo risco

Ao contrário do que muitos imaginam, o sabor dos alimentos não está diretamente ligado à boca, ou melhor, à língua. O otorrinolaringologista Marco Aurélio Fornazieri explica que o olfato é o principal responsável pelo sabor dos alimentos e que as papilas gustativas sentem apenas o doce, salgado, amargo, azedo e o glutamato monossódico.

“São cinco receptores que a gente tem na língua, mas o sabor, isto é, a riqueza de um sorvete ou um café, por exemplo, vem pelo olfato”, salienta o especialista, acrescentando que o sentir dos sabores dos alimentos não está atrelado também àquela ideia do cheiro entrando pelo nariz. “Para sentir os alimentos o olfato vem por trás da garganta até chegar no nariz. É uma via retronasal. Portanto, se a passagem está fechada (por uma adenoide aumentada), a pessoa não sente o sabor”, afirma.

Fornazieri comenta que na maioria dos casos os pais percebem alguma alteração no sono ou na alimentação a partir dos dois anos da criança. Foi o caso da pequena Giovana Kawai Diniz, 4, que há cerca de três meses passou por uma cirurgia para retirada de adenoide e de amígdalas. A mãe Daniela conta que foi nessa idade (2 anos) que ela percebeu que a filha roncava e tinha apneia, mas revela não ter procurado um especialista antes. “Em um primeiro momento, não achei que era algo que precisava ser investigado. Agora, depois da cirurgia, vejo que até meu sono melhorou porque deixei de acordar várias vezes na madrugada para atendê-la. Hoje, ela dorme a noite inteira, se alimenta muito melhor e até voltou a ganhar peso”, comemora.

De acordo com o especialista, a cirurgia de adenoidectomia é de baixo risco, com resultados logo na primeira semana após o procedimento. “A família percebe os efeitos rapidamente”, diz. Sobre as prováveis causas do aumento da adenoide, Fornazieri afirma que não se tem conhecimento sobre todas as causas, mas que a genética e as infecções de repetição do trato respiratório podem ter relação.

Quanto ao tratamento, ele cita que nem sempre haverá a indicação de cirurgia. Dependendo do caso, podem ser prescritos medicamentos à base de corticoides.

PREJUÍZOS E BENEFÍCIOS

Questionado sobre a relação entre a retirada de um órgão linfoide, no caso a adenoide, e a suscetibilidade dos pacientes às infecções por vírus e bactérias, o especialista reflete que “no caso de uma criança que tem hipertrofia e está tendo a alimentação e o sono prejudicados, a adenoide está trazendo mais prejuízos à saúde do que benefícios. Além disso, vão sobrar outros órgãos linfoides que vão suprir a função da adenoide e eles estão localizados em todo o trato aéreo superior.”

 

Artigo publicado no site Folha de Londrina – link original:
https://www.folhadelondrina.com.br/saude/criancas-se-alimentam-melhor-apos-cirurgia-de-adenoide-1019294.html

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