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Descubra como paladar e olfato se conectam, o que causa alterações e como recuperar esses sentidos após gripes e infecções.

Paladar e olfato: qual a relação entre esses dois sentidos?

O paladar e o olfato são dois sentidos essenciais que se interconectam de forma intensa para moldar nossa percepção de sabor, segurança alimentar e bem-estar social. Embora seja comum pensarmos nesses sentidos de maneira isolada, é a interação entre eles que permite identificar com precisão o sabor dos alimentos e reconhecer aromas sutis ao nosso redor. 

Alterações nesses sentidos – como a perda, enfraquecimento ou distorção – são mais frequentes do que se imagina e podem ser indício de condições transitórias ou crônicas, com impacto direto na qualidade de vida.

Como funcionam o paladar e o olfato?

O que é o paladar?

Paladar é a combinação de olfato (cheiros), gosto (amargo, salgado, doce, azedo e umami) e sensações trigeminais, chamada de quimestesia). Um exemplo, é a pipoca que para ser bem palatável, precisa estar cheirosa, salgada e crocante. Estar murcha prejudica o paladar. 

Logo, paladar é a soma de olfato, gustação e quimestesia. 

O paladar é um dos sentidos químicos fundamentais para a sobrevivência e o bem-estar, responsável por identificar os cinco gostos básicos: doce, salgado, amargo, azedo e umami (palavra de origem japonesa que significa “saboroso” ou “delicioso”, geralmente associada à presença de aminoácidos como o glutamato). 

Cada um desses gostos está relacionado a diferentes necessidades biológicas e mecanismos de proteção. 

O sabor doce, por exemplo, sinaliza fontes de energia (carboidratos), enquanto o amargo pode indicar substâncias potencialmente tóxicas, por isso, tende a ser naturalmente rejeitado.

Essas sensações gustativas são detectadas por botões gustativos, estruturas sensoriais compostas por células especializadas que ficam agrupadas em pequenas elevações da mucosa conhecidas como papilas gustativas. 

As papilas estão principalmente localizadas na língua, mas também podem ser encontradas em outras regiões da cavidade oral, como o palato mole (céu da boca), a faringe (garganta) e até a epiglote, estrutura que protege a entrada da laringe durante a deglutição.

Cada botão gustativo contém entre 50 e 100 células receptoras, que entram em contato com moléculas presentes nos alimentos dissolvidos na saliva. 

Quando essas células são ativadas, elas transmitem impulsos elétricos através de nervos específicos — como o nervo facial (VII), o glossofaríngeo (IX) e o vago (X) — até o cérebro, onde os sinais são processados e interpretados como gosto.

Vale lembrar que o paladar isolado, por si só, é relativamente limitado. Ele fornece informações básicas sobre o tipo de gosto, mas não distingue sabores complexos. Para isso, o cérebro integra dados do paladar com os estímulos do olfato, da temperatura, da textura e até da audição mastigatória (o som ao mastigar).

Essa combinação de sentidos é o que forma a chamada percepção gustativa completa, o que realmente chamamos de “sabor”.

O que é o olfato?

Paladar e olfato: menina cheirando óleos essenciais fazendo referência ao olfato.

O olfato é o sentido responsável por detectar e interpretar os odores ao nosso redor. Ele é mediado por uma região especializada chamada epitélio olfatório, localizada na parte superior da cavidade nasal, logo abaixo da base do crânio.

Essa área contém neurônios sensoriais olfatórios, capazes de reconhecer milhares de compostos químicos voláteis presentes no ar. Cada neurônio expressa um tipo específico de receptor olfatório, e a combinação de diferentes ativações permite ao cérebro identificar uma enorme variedade de odores com precisão e sutileza.

Quando inalamos, essas moléculas odoríferas entram em contato com os receptores no epitélio olfatório, ativando os neurônios que, por sua vez, transmitem impulsos elétricos ao bulbo olfatório, uma estrutura localizada na base do cérebro. 

A partir daí, os sinais são encaminhados para áreas cerebrais mais profundas, como o sistema límbico, que está diretamente ligado à memória, às emoções e ao comportamento alimentar. 

É por isso que certos cheiros podem evocar lembranças vívidas ou provocar reações emocionais imediatas – o olfato tem uma conexão íntima com nossa história afetiva e nossa relação com o mundo.

A relação entre paladar e olfato

O elo entre paladar e olfato torna-se ainda mais evidente por meio do que chamamos de olfação retronasal, que é o processo em que os aromas dos alimentos, ao serem mastigados e aquecidos na boca, alcançam o epitélio olfatório pela parte de trás do nariz.

É por isso que, ao resfriar-se ou ficar com o nariz entupido, a comida parece “sem gosto”. Essa conexão explica por que muitas queixas de “paladar alterado” têm, na verdade, origem em disfunções olfativas. Um exemplo clássico para detectar se você estiver com o olfato comprometido, uma banana pode perder seu sabor característico e parecer apenas adocicada ao ingeri-la.

O que pode causar alteração no paladar e no olfato?

Diversas condições podem afetar o paladar e o olfato. Entre as causas mais comuns estão as infecções respiratórias, como gripes e especialmente a Covid-19, que ganhou notoriedade nos últimos anos justamente por provocar perdas sensoriais persistentes. 

Nesses casos, o vírus pode afetar tanto os neurônios olfatórios quanto estruturas de suporte, alterando temporária ou permanentemente a percepção dos odores. Além das infecções, doenças nasais como rinite, sinusite e pólipos nasais também prejudicam o acesso das moléculas odoríferas ao epitélio olfatório. 

Lesões neurológicas, uso de determinados medicamentos, tratamentos oncológicos, exposição a substâncias tóxicas e o envelhecimento natural também são fatores de risco para a perda ou distorção do paladar e do olfato.

Perda de paladar e olfato por gripe ou Covid-19

Paladar e olfato: menina assoando o nariz e com gripe, fazendo referência a perda de olfato.

A perda de paladar e olfato associada a infecções virais — especialmente à gripe (influenza) e à Covid-19 — tornou-se um dos sintomas mais comentados e pesquisados nos últimos anos. Embora essas alterações sensoriais também possam ocorrer com outros vírus respiratórios, foi com o advento do SARS-CoV-2 que se percebeu o impacto mais prolongado e, em muitos casos, debilitante dessas disfunções.

A fisiopatologia da perda de olfato e paladar por infecções virais envolve diferentes mecanismos. No caso da gripe comum, a perda olfativa costuma ser condutiva: ocorre por obstrução nasal, congestão e inflamação da mucosa, impedindo que os odores atinjam o epitélio olfatório, localizado no alto da cavidade nasal. À medida que a infecção e a congestão regridem, a percepção de cheiros tende a se normalizar.

Já no caso da Covid-19, o processo é mais complexo. Estudos atuais mostram que o SARS-CoV-2 não invade diretamente os neurônios olfatórios, mas afeta severamente as células de suporte (sustentaculares) do epitélio olfatório, que expressam o receptor ACE2, que é a porta de entrada do vírus. 

A lesão dessas células altera o ambiente onde os neurônios olfatórios operam, comprometendo sua função e regeneração. Além disso, há evidências de que a inflamação local desencadeia uma resposta imune desregulada, que pode interferir na neurogênese e até levar à apoptose (morte celular programada) de neurônios sensoriais. Isso explica por que muitos pacientes apresentam anosmia (perda total do olfato) mesmo sem sintomas nasais evidentes.

O paladar, embora seja um sentido distinto, também pode ser afetado diretamente pela infecção viral ou indiretamente por alterações olfatórias,  já que boa parte da experiência de sabor depende da olfação retronasal. 

A perda do paladar verdadeiro (ageusia) é menos comum do que se imagina; na maioria dos casos, o que os pacientes descrevem como “comida sem gosto” está relacionado à anosmia ou hiposmia (redução do olfato).

Segundo uma revisão publicada no National Center for Biotechnology Information (NCBI), estima-se que mais de 60% dos pacientes com Covid-19 apresentem algum grau de disfunção olfatória, e até 20% mantêm sintomas após três meses do quadro agudo. 

A gripe também pode levar à perda temporária de paladar e olfato, mas geralmente de forma mais branda e com recuperação espontânea em poucos dias.

Diante desse cenário, a avaliação especializada torna-se fundamental quando os sintomas persistem por mais de duas semanas. O uso de testes olfatórios padronizados, como o OLFATO-UP, e protocolos de treinamento olfativo baseado em evidências têm mostrado eficácia na reabilitação sensorial, mesmo em casos prolongados.

Sintomas e tipos de alteração

Entre os principais tipos de alteração do olfato, estão a anosmia (perda total do olfato), a hiposmia (redução da capacidade olfativa) e a parosmia (percepção distorcida dos odores, muitas vezes desagradáveis, como cheiro de queimado ou podre). 

Já no campo do paladar, há a ageusia (perda completa), a hipogeusia (redução da intensidade) e a disgeusia, em que os sabores são percebidos de forma metálica ou estranha, mesmo na ausência de estímulo externo.

Como recuperar o paladar e o olfato?

Paladar e olfato: mulher comendo queijo fazendo referência ao paladar.

Avaliação médica especializada

A recuperação do paladar e do olfato depende da causa subjacente e do tempo de evolução do quadro. Em casos pós-virais, como os associados à Covid-19, muitas pessoas recuperam os sentidos espontaneamente em algumas semanas, mas há também quem permaneça com sintomas por meses. Nesses casos, a avaliação médica especializada é fundamental. 

O otorrinolaringologista pode solicitar testes objetivos, como a gustometria — que avalia a sensibilidade ao sabor — e o teste olfativo OLFATO-UP, um protocolo confiável, autoadministrável e validado para mensurar o grau de alteração no olfato.

Treinamento olfativo e terapias

Entre as estratégias terapêuticas mais indicadas, destaca-se o treinamento olfativo, método baseado na neuroplasticidade. Consiste na exposição repetida e sistemática a diferentes odores por, no mínimo, três meses. 

Há kits específicos para esse fim, como o Kit de Treinamento Olfatório 4 Odores, voltado a casos leves ou em fase inicial, e o Kit 12 Odores, mais completo, recomendado em reabilitações prolongadas. 

Ambos vêm acompanhados de manual de uso e têm respaldo científico em estudos de recuperação olfatória. O engajamento do paciente é determinante para o sucesso desse tipo de terapia.

Tempo de recuperação

É importante destacar que o tempo de recuperação do paladar e olfato pode variar bastante. Fatores como idade, condição clínica prévia, adesão ao tratamento e gravidade da causa interferem nos resultados. 

Em geral, os primeiros progressos são percebidos após algumas semanas de treinamento, sendo recomendada a continuidade da terapia mesmo em casos de resposta lenta.

Quando procurar um especialista?

Deve-se procurar um especialista sempre que houver perda total do olfato ou paladar por mais de duas semanas, alterações persistentes na percepção de sabores ou odores (como cheiro metálico ou sensação de podridão), ou ainda após infecções virais intensas. Esses sintomas podem sinalizar lesões importantes que requerem intervenção precoce.

Conscientizar-se da importância do paladar e do olfato na vida cotidiana é fundamental. Esses sentidos não apenas nos protegem de perigos como alimentos estragados e vazamentos de gás, mas também estão intimamente ligados ao prazer das refeições, às lembranças afetivas e à interação social. 

Preservar e reabilitar essas funções, quando alteradas, é uma tarefa multidisciplinar que envolve diagnóstico preciso, terapias baseadas em evidências e acompanhamento individualizado. 

Com os avanços da ciência e os recursos disponíveis hoje, há esperança concreta para milhares de pessoas que buscam respostas para a pergunta: “como recuperar o paladar e o olfato?”

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